O trabalho apresentado cumpre os requisitos
satisfatórios para um exercício doutoral na área da Educação – confirmando, ao
seu final, a hipótese aventada: que é de que a identidade política e cívica dos jovens participantes da Revolta
de Cali, em 2021, tem muito
haver com os seus modos anteriores de vida. E que encontraram ali a
possibilidade de uma potente síntese dessas experiências, apontando para
futuras e potenciais iniciativas de melhoria das suas precárias condições
sociais, políticas, econômicas e educacionais.
Como indicado por ti nas conclusões, há
importantes indícios, em todo o trabalho – a começar pelo “estado da arte” dos “estudos sobre juventudes na Colômbia”,
passando pela “cartografia social de
Santiago de Cali”, mas especialmente na “análise interseccional” dos indivíduos no último capítulo –
de que as identidades políticas das
juventudes latino-americanas, baseadas em agências pluralistas e
criativas, ainda que engendradas sob múltiplas vulnerabilidades, podem gestar
caminhos que venham tornar mais amenas as nossas desigualdades de classe, etnia
e gênero nestes territórios.
O mérito específico
de sua investigação foi, neste sentido, como você mesmo expressa, dar “rosto e
voz” a algumas destas trajetórias – que não devem ser mais vistas como uma
“massa anônima” e amorfa, já que apesar de revelarem uma crise multidimensional
das nossas juventudes, são “sujeitos históricos”, com suas virtudes e
limitações, que revelam sentidos de resistência que são, ao fim, sintomas de
uma crise sistêmica mais ampla.
Há, claro, neste tipo de pesquisa, de
reconstrução de trajetórias individuais, o desafio “típico dos métodos
qualitativos”, tal como lembra Angela Alonso[i], que é o risco de uma generalização
excessiva de conclusões “produzidas a partir da observação de um único grupo” –
ou de um pequeno número de casos (Alonso, 2016, p. 11).
Mas, como dito por ti, este tipo de exercício tem
o seu devido valor pela
preservação de narrativas potentes, com o registro de suas estratégias e da
criatividade simbólica de suas ações, que podem contribuir para uma memória contra-hegemônica – ou como diz
a mesma Angela Alonso (2016, p. 12): um legítimo “meio de resgatar o ponto de
vista” de agentes sociais geralmente “silenciados” por aqueles que estão nos
pólos superiores dos sistemas de dominação.
Baseado na presunção epistemológica de que “processos
macrossociais podem ser mais bem apreendidos a partir de microexperiências pessoais” – especialmente, como é o caso,
quando se trata de uma “prosopografia”, como por realizado por ti neste estudo (Alonso,
2016, p. 12).
Em suma, “opiniões, sentimentos e experiências”
que podem se tornar insumos para políticas
civis e públicas mais efetivas que busquem articular o desejo imediato e
necessário de “empregabilidade” e trabalho com propostas de uma educação mais qualitativa,
que dêem conta de sua rica diversidade – o que é importante nesses territórios
vitimados por lógicas de violência que estão relacionadas com fluxos mais globais
de circulação de modos de vida e mercadorias.
Serão esses
exercícios de “educação popular” capazes de conformar numa nova ordem social
mais humana, dialógica e livre – tal como desejava Paulo Freire?
Eis uma questão que sempre me vêm à cabeça quando
me deparo com estudos como o seu. Estudos prenhes de uma esperança libertária,
dialógica e participativa, que se alimentam e retroalimentam sonhos de uma
prática social e educativa que não cerra os olhos para os processos de criação coletiva
dos que estão às margens das ilhas de bem-estar social dos países capitalistas,
porém periféricos – tal qual a expressão cunhada pelo sociólogo Florestan
Fernandes, para quem a universidade, marxianamente, não faz revolução, mas pode
sim contribuir para substantivas reformas[ii].
Nesse momento é que também me vem à cabeça o
depoimento de outro grande cientista social brasileiro, falo agora de Darcy
Ribeiro, que registrou da seguinte forma as
suas derrotas em sua passagem pela Terra:
Fracassei em tudo o que tentei na vida.
Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não
consegui.
Tentei salvar os índios, não consegui.
Tentei fazer uma universidade séria e fracassei.
Tentei fazer o Brasil desenvolver-se
autonomamente e fracassei.
Mas os fracassos são minhas vitórias.
Eu detestaria estar
no lugar de quem me venceu.
E que assim permaneçamos reconhecendo e
fortalecendo, como você fez, as trajetórias e as ações educacionais que insistem
em reforçar o vínculos entre as experiências populares e o ensino dito “formal”,
nas suas mais diversas modalidades, para a conformação de futuros mais dignos –
seja para a juventude do Cali, seja para o restante da América que alguns
chamam de “Ladina”.
Enfim, grato, novamente, pela oportunidade de
diálogo e de acompanhar-te até aqui – e parabéns pelo título a ser alcançado.
Que, pelo que eu ouvi dos colegas até aqui, está muito bem encaminhado – ainda
que possa incorporar algumas das contribuições elencadas, tanto de forma quanto
de conteúdo, para que a versão final mereça a devida divulgação.
Parabéns e obrigado!
[i] ALONSO, Angela. Métodos qualitativos de pesquisa: uma introdução. (pp. 08-23). In: ABDAL, Alexandre; OLIVEIRA, Maria Carolina Vasconcelos; GHEZI, Daniela Ribas; SANTOS Júnior, Jaime. Métodos de pesquisa em Ciências Sociais: Bloco Qualitativo. São Paulo: SESC/Cebrap, 2016.
[ii] OLIVEIRA, Marcos Marques de. O ProfessorFlorestan e as lições que o PT esqueceu: E outros escritos florestânicos sobresociologia, educação e política. Niterói (RJ): Edição do Autor, 2012.



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