9 de março de 2026

[Artigo] Modos de vida e experiências de resistência juvenil em Cali (Colômbia)*

 


O trabalho apresentado cumpre os requisitos satisfatórios para um exercício doutoral na área da Educação – confirmando, ao seu final, a hipótese aventada: que é de que a identidade política e cívica dos jovens participantes da Revolta de Cali, em 2021, tem muito haver com os seus modos anteriores de vida. E que encontraram ali a possibilidade de uma potente síntese dessas experiências, apontando para futuras e potenciais iniciativas de melhoria das suas precárias condições sociais, políticas, econômicas e educacionais.

Como indicado por ti nas conclusões, há importantes indícios, em todo o trabalho – a começar pelo “estado da arte” dos “estudos sobre juventudes na Colômbia”, passando pela “cartografia social de Santiago de Cali”, mas especialmente na “análise interseccional” dos indivíduos no último capítulode que as identidades políticas das juventudes latino-americanas, baseadas em agências pluralistas e criativas, ainda que engendradas sob múltiplas vulnerabilidades, podem gestar caminhos que venham tornar mais amenas as nossas desigualdades de classe, etnia e gênero nestes territórios.

O mérito específico de sua investigação foi, neste sentido, como você mesmo expressa, dar “rosto e voz” a algumas destas trajetórias – que não devem ser mais vistas como uma “massa anônima” e amorfa, já que apesar de revelarem uma crise multidimensional das nossas juventudes, são “sujeitos históricos”, com suas virtudes e limitações, que revelam sentidos de resistência que são, ao fim, sintomas de uma crise sistêmica mais ampla.

Há, claro, neste tipo de pesquisa, de reconstrução de trajetórias individuais, o desafio “típico dos métodos qualitativos”, tal como lembra Angela Alonso[i], que é o risco de uma generalização excessiva de conclusões “produzidas a partir da observação de um único grupo” – ou de um pequeno número de casos (Alonso, 2016, p. 11).

Mas, como dito por ti, este tipo de exercício tem o seu devido valor pela preservação de narrativas potentes, com o registro de suas estratégias e da criatividade simbólica de suas ações, que podem contribuir para uma memória contra-hegemônica – ou como diz a mesma Angela Alonso (2016, p. 12): um legítimo “meio de resgatar o ponto de vista” de agentes sociais geralmente “silenciados” por aqueles que estão nos pólos superiores dos sistemas de dominação.

Baseado na presunção epistemológica de que “processos macrossociais podem ser mais bem apreendidos a partir de microexperiências pessoais” – especialmente, como é o caso, quando se trata de uma “prosopografia”, como por realizado por ti neste estudo (Alonso, 2016, p. 12).

Em suma, “opiniões, sentimentos e experiências” que podem se tornar insumos para políticas civis e públicas mais efetivas que busquem articular o desejo imediato e necessário de “empregabilidade” e trabalho com propostas de uma educação mais qualitativa, que dêem conta de sua rica diversidade – o que é importante nesses territórios vitimados por lógicas de violência que estão relacionadas com fluxos mais globais de circulação de modos de vida e mercadorias.

Serão esses exercícios de “educação popular” capazes de conformar numa nova ordem social mais humana, dialógica e livre – tal como desejava Paulo Freire?

Eis uma questão que sempre me vêm à cabeça quando me deparo com estudos como o seu. Estudos prenhes de uma esperança libertária, dialógica e participativa, que se alimentam e retroalimentam sonhos de uma prática social e educativa que não cerra os olhos para os processos de criação coletiva dos que estão às margens das ilhas de bem-estar social dos países capitalistas, porém periféricos – tal qual a expressão cunhada pelo sociólogo Florestan Fernandes, para quem a universidade, marxianamente, não faz revolução, mas pode sim contribuir para substantivas reformas[ii].

Nesse momento é que também me vem à cabeça o depoimento de outro grande cientista social brasileiro, falo agora de Darcy Ribeiro, que registrou da seguinte forma as suas derrotas em sua passagem pela Terra:

Fracassei em tudo o que tentei na vida.

Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui.

Tentei salvar os índios, não consegui.

Tentei fazer uma universidade séria e fracassei.

Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei.

Mas os fracassos são minhas vitórias.

Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu.

E que assim permaneçamos reconhecendo e fortalecendo, como você fez, as trajetórias e as ações educacionais que insistem em reforçar o vínculos entre as experiências populares e o ensino dito “formal”, nas suas mais diversas modalidades, para a conformação de futuros mais dignos – seja para a juventude do Cali, seja para o restante da América que alguns chamam de “Ladina”.

Enfim, grato, novamente, pela oportunidade de diálogo e de acompanhar-te até aqui – e parabéns pelo título a ser alcançado. Que, pelo que eu ouvi dos colegas até aqui, está muito bem encaminhado – ainda que possa incorporar algumas das contribuições elencadas, tanto de forma quanto de conteúdo, para que a versão final mereça a devida divulgação.

Parabéns e obrigado!

* Anotações para a banca de doutoramento de Ana Lucia Medina Maya no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal Fluminense, que aconteceu em 09/03/2026, com a seguinte banca: Elionaldo Fernandes Julião (Presidente, UFF), Ana Karina Brenner (UERJ), Mônica Peregrino (Unirio), Jorge Posada (Universidad Pedagógica Nacional), Paulo Cesar Carrano (UFF) e Marcos Marques de Oliveira (UFF).


[i] ALONSO, Angela. Métodos qualitativos de pesquisa: uma introdução. (pp. 08-23). In: ABDAL, Alexandre; OLIVEIRA, Maria Carolina Vasconcelos; GHEZI, Daniela Ribas; SANTOS Júnior, Jaime. Métodos de pesquisa em Ciências Sociais: Bloco Qualitativo. São Paulo: SESC/Cebrap, 2016.

2 de março de 2026

(2026-1) Sugestão de disciplina optativa

 Boa noite!


Segue a sugestão de uma Disciplina Optativa para este semestre, a cargo do meu colega Nevaldo Leocádia Bastos Júnior.




Um excelente início de semestre a tod@s!

At.te Marcos Marques de Oliveira

Professor de Sociologia da Educação

Subchefe do Departamento de Educação (IEAR/UFF)

Membro do Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (CEPEX/UFF)


27 de dezembro de 2025

[Artigo] Por um novo tratamento da notícia

#tbt
#artigo
#ObservatórioDaImprensa

Por um novo tratamento da notícia

- O grande mérito de trabalhos como este desenvolvido pela universidade mexicana está em não corroborar com o aforismo de que “aquilo que não está na mídia não está no mundo”. Se é verdade que, para o bem ou para o mal, a palavra da imprensa ajuda a configurar a realidade social, é mais concreto ainda constatar que a palavra da imprensa não possui o monopólio deste processo. E, quanto menor o oligopólio da imprensa e a auto-suficiência dos jornalistas com suas “fontes” costumeiras, maior a possibilidade de outras vozes serem ouvidas.

Acesse o link.


12 de dezembro de 2025

[Artigo] Ética em pesquisa nas humanidades: tensões, avanços e desafios institucionais

Palavras-chave: 

ética em pesquisa, Ciências Humanas e Sociais, Sistema CEP-Conep, regulação biomédica, método sócio-histórico

Resumo

Introdução: O artigo examina os efeitos da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep) sobre investigações em Ciências Humanas e Sociais (CHS), destacando a tensão entre um sistema de avaliação estruturado, de um lado, sob a hegemonia da matriz biomédica e, de outro, as epistemologias próprias das humanidades. O problema central é a insuficiente adequação das normativas vigentes às práticas metodológicas das CHS, com impactos sobre consentimento, uso de dados e escrita científica. Materiais e métodos: A análise utiliza abordagem sócio-histórica baseada em documentação normativa (resoluções, ofícios, legislações correlatas) e literatura especializada. O método permite reconstruir a trajetória institucional do Sistema CEP-Conep e avaliar suas repercussões sobre a prática investigativa nas CHS. Resultados: O estudo identifica: (1) a expansão do Sistema CEP-Conep, originado no campo biomédico, para regular pesquisas nas CHS; (2) a mobilização de entidades da área, reunidas em um fórum de Ciências Humanas, em defesa de um modelo avaliativo próprio; (3) a Resolução 510/2016 como avanço parcial, ao reconhecer metodologias qualitativas e flexibilizar procedimentos de consentimento; (4) dificuldades persistentes, como a hegemonia biomédica na composição dos comitês e problemas de operacionalização; e (5) a delimitação, pela Resolução 674/2022, de modalidades de pesquisa isentas de submissão, incluindo consultas de opinião, uso de dados públicos e revisões bibliográficas. Discussão: Apesar de ajustes recentes, o modelo segue pouco compatível com a diversidade epistemológica das CHS. O artigo argumenta que a formação ética deve ir além da conformidade procedimental, enfatizando integridade, autoria responsável e uso criterioso de tecnologias, como inteligência artificial. Conclui que a construção de um ecossistema de ética em pesquisa exige articulação entre pesquisadores, instituições e políticas científicas, superando limites herdados da tradição biomédica.

DOI: https://doi.org/10.1590/1678-98732433e023

[Artigo] Modos de vida e experiências de resistência juvenil em Cali (Colômbia)*

  O trabalho apresentado cumpre os requisitos satisfatórios para um exercício doutoral na área da Educação – confirmando, ao seu final, a hi...