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14 de outubro de 2024

(Lançamento) Ensaios sobre Florestan Fernandes

Na próxima quinta-feira (17/10/2024), às 18h, será lançado na Sala Carlos Couto, no Teatro Municipal de Niterói (RJ), o terceiro volume da Coleção “Diálogos com Pensadores da Educação Brasileira”, intitulado “Ensaios sobre Florestan Fernandes”.

A obra, que homenageia o criador da Escola Paulista de Sociologia, além de dedicada à Escola Nacional Florestan Fernandes, do MST, traz uma diversificada coletânea de ensaios que articulam o seu pensamento em diálogo com outros grandes intelectuais.

Organizado por Waldeck Carneiro e Viviane Merlim Moraes, docentes da Faculdade de Educação da UFF, o volume conta com a participação de importantes especialistas na obra de Florestan Fernandes, tais como Flávia Araujo (UFF), Giovanni Semeraro (UFF), Iduina Chaves (UFF) e Roberto Leher (UFRJ). Destaca-se o prefácio do professor Gaudêncio Frigotto (UERJ) e o posfácio de Dermeval Saviani (Unicamp).

E entre os autores está ainda o professor do IEAR/UFF, o sociólogo Marcos Marques de Oliveira, que colabora com o capítulo “Florestan Fernandes, um intelectual mannheimiano”.

No dia 28/10/2024, um novo lançamento está programado para a Livraria da Travessa, no bairro do Leblon, na cidade do Rio de Janeiro.

Notícia: http://iear.uff.br/2024/10/14/divulgacao-lancamento-do-livro-ensaios-sobre-florestan-fernandes/



9 de outubro de 2024

(Lançamento) Ensaios sobre Florestan Fernandes: sociólogo, político e defensor da educação pública

#lançamento 😊
#florestanfernandes

"Desde seus primeiros estudos lógicos e histórico-sociológicos, Mannheim já se inclinava por soluções de forte cunho humanístico. [...] Daí sua disposição para a síntese, entendida como atividade construtiva e criadora – não como forma de compromisso, de indecisão ou de evasão diante da responsabilidade científica" (Fernandes, 1971, p. 392).

A influencia de Karl Mannheim sobre a obra do nosso maior sociólogo - eis a questão que abordo no ensaio "Florestan Fernandes, um intelectual mannheimiano", presente no volume organizado pelos professores Viviane Merlim Moraes (UFF) e Waldeck Carneiro (UFF).


 

3 de outubro de 2024

(Live) Ciclo Padrões e Dilemas com Florestan Fernandes - Diogo Valença de Azevedo Costa

É possível um pensar autônomo e inovador na periferia do capitalismo?

Eis uma das questões de que trata o pesquisador Diogo Valença de Azevedo Costa, professor da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) na sua reflexão sobre a obra de #FlorestanFernandes - aproveitando o lançamento do livro "Padrões e Dilemas", que reúne textos do mestre da sociologia paulista, junto com um prefácio de Gabriel Cohn (USP) e uma apresentação de André Magnelli (Ateliê de Humanidades).

A obra, vale ressaltar, faz parte da coleção Biblioteca Básica Latinoamericana (BBLA), organizada pelo Ateliê de Humanidades junto com a Fundação Darcy Ribeiro e Tucán Ediciones.

Link da live: https://www.youtube.com/watch?v=yCvzN3o-D_s


Apresentação da Live

Boa noite a todos.

Cabendo a mim a recepcionar Diogo Valença de Azevedo Costa, inicio informando que já o conheço há duas décadas, quando nos esbarramos pelos corredores da Biblioteca de Florestan Fernandes – hoje sediada na UFSCAR.

Desde então, aficcionado que sou pela obra do mestre paulista, tenho acompanhado a sua produção sobre o tema, assim como sua trajetória como docente na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. 

Entre os seus diversos escritos, destaco "Florestan Fernandes: trajetória, memórias e dilemas do Brasil", organizado com sua orientadora Eliane Veras Soares, professora da Universidade Federal de Pernambuco – livro o qual eu considero como uma das mais importantes homenagens que o sociólogo recebeu durante as comemorações do seu centenário de nascimento, em 2020.

Por essas credenciais, tenho a certeza que teremos uma excelente noite de abertura deste ciclo que tem o objetivo de divulgar nono volume da Biblioteca Básica Latino-Americana, que se chama “Padrões e Dilemas”, de Florestan Fernandes.

Prezado Diogo, será um prazer ouvi-lo sobre o tema “Padrões, dilemas e opções: como teorizar nas sociedades dependentes?”. 

Grato, desde já, pela sua colaboração.

Marcos Marques de Oliveira (UFF)
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Questão inicial feita após o debate

Boa parte da reflexão de Florestan sobre o capitalismo dependente, e por consequência da possível superação deste por um processo revolucionário de corte socialista, foi teorizada num mundo bem diferente do nosso. 

Naquela época tínhamos, por exemplo, a existência de um bloco socialista forte, que dominava parte significativa do globo. Fato que o fazia acreditar, em suas próprias palavras, que estávamos “em um mundo em que a revolução socialista” era “uma realidade histórica”.

Agora, em que não estamos mais num momento em que “um terço da humanidade vive em regimes socialistas”, novamente nas palavras do mestre paulista, como você analisa a pertinência atual de suas noções de “revolução dentro da ordem” e “revolução contra ordem”. 

Ou seja, de que maneira podemos nos apropriar, proveitosa e criticamente, de suas teorizações sobre os limites do que ele chama de “reformismo” ou as possibilidades concretas de “revoluções” de marca socialista. 

Mais especificamente, fazendo uma respeitosa provocação, parafraseando o poeta Renato Russo: “o socialismo, para se viabilizar, ele não deveria ser mais do que ele era antigamente”? 

Por fim, o que seria esse “ser mais”? Florestan ainda pode nos ajudar a pensar sobre isso?

 


22 de julho de 2024

14 de agosto de 2023

[Artigo] Cotas: o que as manchetes escondem

Aproveitando a recém aprovação da renovação da "Lei das Cotas" pela Câmara dos Deputados, socializo um antigo artigo meu, publicado em 26/02/2003, há mais de vinte anos, no site Observatório da Imprensa, sobre o tema - e republicado na coletânea Escritos florestânicos sobre comunicação, educação e política (Kindle, 2021).

"Para além do mecanismo das cotas (que pode ser, dependendo da forma de implementação e da consciência de seus limites, um importante instrumento compensatório para históricas dívidas sociais), o que deve pautar as políticas educacionais é o debate sobre o modelo de desenvolvimento socioeconômico que o atual bloco político pretende implementar, o que, por sua vez, determina qual o papel do Estado na promoção dos direitos fundamentais do homem, no qual está incluso o acesso à educação, há muito proclamados nas declarações universais e na Constituição nacional".

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RESERVA DE COTAS

O que as manchetes escondem

Marcos Marques de Oliveira (*)

O "vestibular das cotas" da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, para além de seus defeitos e virtudes, teve o mérito de recolocar em pauta um tema há muito esquecido pela sociedade brasileira. Não falo aqui das posições pró ou contra as cotas étnicas ou por origem de instituição, assunto de quase todas as notícias relativas ao acontecimento. O que quero enfatizar é o voluntário desmonte da universidade pública, gratuita e de qualidade, processo que se consolidou com as políticas educacionais dos governos do intelectual Fernando Henrique Cardoso.

Não vai aqui nenhuma denúncia efusiva contra o renomado sociólogo, mas apenas o reconhecimento de que este resultado corresponde aos princípios filosóficos e éticos que permeiam o ideal político do grupo que representa. Na perspectiva do bloco de poder que assume a hegemonia das políticas públicas no período 1994-2002, estavam esgotadas as potencialidades do nacional-desenvolvimentismo, principalmente no que se refere ao papel destinado ao Estado.

Como destaca o Plano Diretor da Reforma do Aparelho do Estado de 1995, esse modelo mostrou-se superado por três motivos: a) pela crise fiscal, devido a crescente perda de crédito estatal, o que tornou a poupança pública negativa; b) pelo esgotamento da estratégia estatizante de intervenção do Estado; c) pela antiquada forma de administração estatal, caracterizada pela gerência política-burocrática.

O "novo Estado" idealizado pelo bloco político capitaneado pelo PSDB deveria deixar de ser responsável direto pelo desenvolvimento econômico e social, tendo que se fortalecer como promotor e regulador deste processo. Sua função, portanto, estaria restrita a uma ação redistributiva dos bens sociais e ao cumprimento do clássico objetivo hobbesiano de garantir a ordem interna e a segurança externa.

Ciência e mercado

Para tanto, tornava-se premente a transferência para o setor privado das atividades que pudessem ser controladas pelo mercado. A privatização e a constituição do setor público não-estatal (o chamado "terceiro setor") seriam os grandes instrumentos de execução dos serviços que não demandariam o exercício do poder do Estado, mas apenas o seu subsídio. Neste campo, junto aos serviços de saúde e cultura, estaria a educação, principalmente no que se refere ao acesso do ensino superior e ao desenvolvimento da ciência e da tecnologia.

A consequência dessa política na área educacional foi o selvagem processo de empresariamento do antigo 3º grau. O setor privado, segundo o Censo Escolar de 2001, detém 87% das instituições e 69% das matrículas. Enquanto, de 1994 a 2001, o número de alunos em instituições privadas cresceu de 970.584 para 2.091.529 (115%), nas instituições públicas as matrículas passaram de 690.450 para 939.225 (36%). Tal processo inverteu a tendência do período 1990-1994, quando o setor privado cresceu apenas 0,9%, e o público, 19,3%.

Uma avaliação incauta poderia argumentar que, de qualquer forma, o "negócio" cresceu. Sim, mas em que condições? De um lado, houve o sucateamento das instituições públicas de ensino, que sofreram com a mitigação de recursos e a desmobilização do seu corpo de funcionários, afetados pelo congelamento dos salários, a terceirização dos serviços de manutenção e as cada vez mais precárias condições de ensino e pesquisa. Só para se ter uma ideia, os valores das bolsas de mestrado e doutorado continuam hoje com os mesmos de 1994.

A exceção ficou por conta dos denominados "núcleos estratégicos" estimulados pelo poder político, que serviram para o acirramento da concorrência e inviabilizar qualquer resistência. Soma-se a isso o cada vez maior estreitamento entre a produção científica destes núcleos e os interesses do mercado globalizado, que através das fundações e das organizações sociais podem inviabilizar pesquisas de amplo interesse público e social.

Em vigor, o subcapitalismo

Do outro lado, a expansão privada mostrou sua face cruel. A multiplicação de cursos não acompanhou o investimento em infraestrutura, salário docente e condições de pagamento da clientela (apesar do esforço governamental em aumentar o chamado "crédito educativo"). O resultado, como demonstra a corrosiva disputa midiática entre universidades, centros universitários e faculdades isoladas, é a multiplicação de cursos de péssima qualidade, professores com inumanas condições de trabalho (salários atrasados, número exacerbado de aulas, vários vínculos empregatícios) e alunos humilhados com as estratégias de combate à inadimplência. Com esse quadro, dá para imaginar as condições de ensino-aprendizagem a que estão submetidos os futuros médicos, jornalistas, juristas, psicólogos, educadores...

Desta forma, para além do mecanismo das cotas (que pode ser, dependendo da forma de implementação e da consciência de seus limites, um importante instrumento compensatório para históricas dívidas sociais), o que deve pautar as políticas educacionais é o debate sobre o modelo de desenvolvimento socioeconômico que o atual bloco político pretende implementar, o que, por sua vez, determina qual o papel do Estado na promoção dos direitos fundamentais do homem, no qual está incluso o acesso à educação, há muito proclamados nas declarações universais e na Constituição nacional.

A continuar a sublimação deste debate, permanecerão as estratégias de precarização e privatização dos agora chamados "serviços" públicos, que deixam de ser pensados a partir das políticas de universalização e igualdade para dar lugar ao voluntarismo de uma pretensa sociedade civil homogênea e à clássica novidade das políticas promotoras da denominada equidade de oportunidades.

O horizonte das cotas, portanto, deve ser a universalidade do bem-estar social, que no caso do ensino superior se expressa na possibilidade de acesso de um público cada vez mais amplo a uma educação de qualidade socialmente referenciada que justifique sua gratuidade.

Terminando uma de suas teses, o sociólogo Fernando Henrique colocava a questão: subcapitalismo ou socialismo? Sei que a opção pelo segundo modelo, se é que ele existe, não é tarefa das mais fáceis. No entanto, a continuar o consenso que paira sob governo, sociedade e mídia deste país tupiniquim, as políticas de manutenção do primeiro estágio permanecerão sendo implementadas.

(*) Jornalista, cientista político e pesquisador da UFF; autor de O desenvolvimento da ação sindical do ensino privado brasileiro(Preal/Fundação Getúlio Vargas, 2001) e Os empresários da educação e o sindicalismo patronal (Edusf, 2002)

28 de junho de 2023

Vicente e Antonio: a história de uma amizade - Resenha de Alerrandro Adrian

 


Vicente e Antonio: a história de uma amizade*

Alerrandro Adrian

É uma conversa entre duas pessoas, ou melhor, entre quatro pessoas, o Jovem e o Velho Florestan se reúnem ao Jovem e ao Velho Antonio. A atuação de Walter Breda (Florestan Fernandes), José Augusto Zacchi (Florestan Fernandes jovem), Oswaldo Mendes (Antonio Candido) e Caetano O'Maihlan (Antonio Candido jovem), permite que nós vejamos o encontro desses dois amigos. As palavras que saltam dos papéis lidos pelos atores foram inspiradas em palavras enviadas há algum tempo, a peça foi baseada nas cartas trocadas entre Vicente – posteriormente se “tornaria” Florestan – e Antonio, reunindo desde as primeiras cartas enviadas em fevereiro de 1942 até o fim da vida de Florestan, na década de 1990.

A peça “Vicente e Antonio" é de autoria de Oswaldo Mendes e foi lida por quatro atores, sob a direção de Eduardo Tolentino de Araújo, primo de Antonio Candido, e diretor do Grupo Tapa. A conversa segue de uma maneira maravilhosamente fluída e cativante, os personagens, Florestan e Antonio, se percebem fora de seu tempo original, estão nos dias atuais e dialogam muito conscientes de toda sua trajetória de amizade, relembrando os principais eventos que marcaram suas vidas, realizando citações específicas, em alguns momentos, das cartas que escreveram. Talvez o charme principal para essa conversa entre dois amigos, seja o fato de serem quatro pessoas a realizando, representando uma versão mais nova e uma mais velha de cada um, nos permitindo perceber o amadurecimento de Florestan Fernandes e de Antonio Candido.


O carisma dos atores nos permite fantasiar a amizade entre os dois, o amor e a admiração que sentiam um pelo outro, de fato, como dizem na peça, eles já eram mais que amigos, eram irmãos. A naturalidade com que seguem a conversa nos mantém presos, com os ouvidos curiosos, completamente atentos ao próximo detalhe, provocados a descobrir o que acontecerá, ou melhor, o que aconteceu.


Ao longo da peça podemos ver algumas das vitórias e derrotas, algumas das aventuras e desventuras de Florestan e Antonio, principalmente as de Florestan, afinal ele acaba sendo a figura central nesta narrativa, mas, falando em figura central, é possível notar que não se trata de mostrar todos detalhes ou mostrar como Florestan se torna o que foi, “Vicente e Antonio” é sobre a história de amizade que essas duas pessoas viveram, Antonio não seria o mesmo sem a amizade de Florestan, assim como Florestan também não seria o mesmo.


“Vicente e Antonio” é uma peça sobre duas pessoas que não se conheciam, que nasceram em cenários diferentes, mas se encontraram, se tornaram amigos, se tornaram irmãos, e por um tempo ficaram separados, mais longe do que qualquer carta possa alcançar, mas que certamente vão se encontrar mais uma vez.


* Resenha para a disciplina "Sociologia, Educação e Democracia em Florestan Fernandes", ofertada em 2023.1, pelo professor Marcos Marques de Oliveira, no Curso de Pedagogia do Instituto de Educação de Angra dos Reis (IEAR/UFF).

Link para a peça-filme: https://www.youtube.com/watch?v=8DeP2TJ3XXE


18 de janeiro de 2022

A pedagogia revolucionária de José Pacheco*

Por Marcos Marques de Oliveira**

Apresentar José Pacheco aos educadores brasileiros, cada vez mais, torna-se desnecessário. Desde que revolucionou o ensino na longínqua Escola da Ponte, pequeno estabelecimento destinado a jovens “desajustados” da Vila das Aves, na cidade do Porto, em Portugal, seu nome frequenta com assiduidade as muitas conferências, encontros e seminários da área educacional pelo país afora. O que chama atenção na trajetória desse professor? A ousadia de derrubar mitos pedagógicos que vêm desde os tempos de formação da escola “moderna”.

– Somos herdeiros de um modelo napoleônico de ensino, forjado em ideias e princípios do Século XIX, moldado pelos adventos da Revolução Industrial e da criação das repúblicas nacionalistas. Esse modelo pode ser resumido na quadra “caserna, convento, prisão e escola”, cujas arquiteturas opressivas foram muito bem investigadas por pessoas como Michel Foucault e Pierre Bourdieu, explica Pacheco, que decretou o fim das séries, das aulas e dos turnos no estabelecimento que foi convidado a dirigir no ano de 1976.

Nessa época, a Escola da Ponte não passava de um “arquipélago de solidões”, que agregava meninos e meninas que outras escolas rejeitavam. De um lado, professores refugiados em suas salas de aula, sozinhos com seus alunos, métodos e manuais, obedecendo a uma imposta lógica multidisciplinar que não sinalizava para nenhum projeto comum. O professor como centro, informado por materiais uniformizados, exigindo lições repetidas que culminavam numa passividade generalizada.

– Percebi que teria que tomar outro rumo e comecei a refletir. Como fazer diferença? É possível educar de outra maneira? Inspirei-me em minha vivência de professor convencional (sim, eu fui!), na minha difícil experiência como avaliador e, por fim, nas várias tendências pedagógicas libertárias para tentar dar sentido àquela instituição em que nada fazia sentido.


Função simbólica

O fato é que, depois de mais de três décadas do início da experiência, a Escola da Ponte vem obtendo os melhores resultados nas avaliações educacionais do país, adotando uma forma de organização e gestão surpreendente para os que estão acostumados com o nosso ideal de escola: além da ausência das salas e crianças separadas em série ou idade, os alunos é que decidem o que estudar, montam seus próprios grupos de interesse e são eles que solicitam a intervenção do transdisciplinar corpo de professores-tutores.

O que aparentemente poderia redundar numa situação de caos, resultou num novo paradigma educacional para o ensino dito “formal”, que sob o signo de uma suposta cientificidade pedagógica pouco contribui para despertar na comunidade escolar as características mais dignas da prática científica: a capacidade de observar, questionar, experimentar, avaliar, analisar, criticar, compreender e, se possível, intervir para transformar. “Como isso acontece nas escolas em que o aluno é só um ouvinte, um receptáculo de conteúdos?”, pergunta o ex-diretor da Ponte, avisando que o exitoso “paradigma” está longe de ser uma receita aplicável em qualquer contexto e lugar.

– Tenho ciência, sem falsa modéstia, que eu e a Ponte cumprimos uma função simbólica importante. Sinto-me, na verdade, privilegiado por ter participado de um projeto de cunho revolucionário que deu certo. Mas procurar em mim ou na Ponte soluções para problemas educacionais de outras pessoas, instituições e localidades é um equívoco. Por exemplo, muitos me perguntam sobre como resolver questões de indisciplina, de dificuldades de aprendizagem de seus alunos. Não tenho fórmula mágica. O que posso fazer, e venho fazendo, é confrontar formas de se educar com o que fiz. No máximo, mostrar que é possível extinguir algumas práticas e, com isso, se ensinar de outra maneira. Mas, cada um à sua maneira, avisa Pacheco.


Transgressão fundamentada

Especificamente sobre indisciplina, o professor lembra que o modelo convencional de ensino é exímio na produção de um inconformismo conformista. Ou seja, ao impor um mesmo ritmo para todos, com base numa separação enciclopédica de conteúdos oferecidos em doses homeopáticas de forma autoritária, torna-se um estímulo para o desestímulo, combustível para o desinteresse seguido de atos de egocentrismo. No caso da Ponte, os alunos são convidados a transgredir fundamentando a transgressão, misturando com equilíbrio solidariedade e competição, ajudando o coletivo a se reinventar todos os dias.

Uma última dica do professor Pacheco: o cuidado com o fetiche tecnológico.

– Nós nunca rejeitamos nenhuma ferramenta. Porém, não perdemos o senso crítico advogando o simples aparelhamento. Fomos, por isso, também os primeiros a reagir contra os riscos da perversão das novas tecnologias. Admitimos as vantagens, mas com prudência. Se não for assim, a entrada do computador pode até servir para reforçar o ensino tradicional. O que importa, sempre, é dominar as ferramentas. Não ser dominado por elas. Ao invés de se encherem de máquinas, as escolas devem começar a pensar quais serão suas funções e lugar nos próximos dez, vinte anos. Nesse tempo, talvez nem existam mais computadores e escolas como conhecemos. Os “espaços de aprendizagem” deverão ganhar novas formas e institucionalidades. E, muito provavelmente, os diplomas não vão dizer mais nada, já que as competências e habilidades serão medidas por mecanismos mais flexíveis. 

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* Texto publicado originalmente no Jornal do SINEPE/RJ, em abril de 2008. Versão com atualização ortográfica.

** Professor de Sociologia da Educação do Instituto de Educação de Angra dos Reis (IEAR) e do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal Fluminense (UFF). 

3 de fevereiro de 2021

[Mesa Redonda] Economia, Estado e sociedade no pensamento social e político

Registro de nossa participação no II Seminário Pensamento Social Brasileiro, realizado pela UFES, quando apresentamos o trabalho "Visões do inferno: a sociabilidade do 'homem comum' brasileiro pela ótica da Escola de Sociologia Paulista".


30 de novembro de 2020

[Novo Artigo] METAMORFOSES DO ENSINO SUPERIOR BRASILEIRO

 A nossa entrevista com Afrânio Mendes Catani (USP), na Movimento - Revista de Educação da Faculdade de Educação da UFF.

"Na  atual  conjuntura,  será  muito  difícil  conter os lobbies privatistas, que representam fortíssimos grupos financeiros – com grande capacidade de influência sobre o atual governo. E minha crítica, recordando o que eu já disse sobre o que penso do papel do intelectual, no sentido apontado por Weber, é que seja o grande gargalo histórico: diversas políticas de governos, muitas até boas, não se transformaram em políticas de Estado. O que demonstra uma grande fragilidade nossa, política e societária"...

Link: https://periodicos.uff.br/revistamovimento/article/view/45742/27291 

(Lançamento) Como Planejar, Escrever e Publicar na Universidade

  hashtag Editado pela Escola Nacional de Administração Pública (Enap), em parceria com a Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP), ...