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"Sem dúvida, a Sociologia não valeria uma hora de trabalho... se não fosse para se atribuir a tarefa de restaurar às pessoas o significado de sua própria ação". [Pierre Bourdieu]
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21 de abril de 2012

Sobre "voluntariado": diálogo com um anônimo


Para dar mais visibilidade a um diálogo que venho travando com um leitor anônimo desse nosso blog, coloco em post os comentários incluídos na última postagem, na qual eu informava aos alunos sobre a possibilidade de participar como voluntários da Rio +20, a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, que será realizada de 13 a 22 de junho de 2012.

Como estive presente na Rio 92, especialmente para assistir uma inesquecível apresentação da saudosa banda punk francesa "Mano Negra" (com a riquíssima participação de Jello Biafra, vocalista da californiana "Dead Kennedys"), penso que para universitários em formação (como eu era na época) é uma boa oportunidade para assistir importantes palestras sobre o tema da "sustentabilidade" e, ainda, fazer contatos para, quem sabe, futuras oportunidades.

Mas, parece que o Sr. Anônimo não concorda, como se verá a seguir:

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[Anônimo disse...]

"Trabalho voluntário não! Devemos dizer não a qualquer forma de trabalho voluntário.Todos devem ser recompensados financeiramente pelo suor de seus trabalhos."


[Marcos Marques respondeu...]

"Como o termo expressa: é voluntário. Vai quem achar que pode ser interessante ganhar experiência sobre o assunto e fazer contatos que possam, quem sabe, no futuro, servir de "meio de vida". O "valor", como ensinava o velho Marx, nem sempre é em "moeda".


[Anônimo replicou...]

"Então ser voluntariado este é o grande problema nos dias atuais. Se pensarmos desta forma estaremos também compartilhando da idéia de trabalhar como voluntariado na Copa. Enquanto uns trabalham numa forma escravocrata , mesmo que mesmo "voluntariamente" queira fazer tal trabalho que em suma é uma coisa sacerdotal. Poderiamos isso é opção. Devemos dizer e mostrar a verdadeira faceta do que significa um trabalho voluntário em uma instituição que não é filantrópica e sim que estas instituições são milionárias, logo deveria sim pagar pelo serviço prestrado. Se agirmos desta forma estaremos ainda compartilhando de uma perversidade onde qualquer um pode ser voluntário na escola, desvalorizando e precarizando ainda mais a o trabalho docente.E tem mais eu nunca li que Marx compartilhava dessa teoria de exploração do trabalho alheio.Isso é exploração do trabalho alheio e Marx era fundamentalmente contra."


[Marcos Marques respondeu...]

"Sr. Anônimo, vamos por partes:

a) Não disse e não acho que "ser voluntariado é o grande problema nos dias atuais"; 

b) Não me referi a eventos como a Copa, de caráter institucionalmente privado, mas a Rio +20, organizado por agências multilaterais; 

c) Há diferenças grandes entre "sacerdócio" (pra vida inteira) e trabalho eventual "voluntário";

d) Assim, como "eventual", pode até mesmo dinamizar de forma progressiva o ambiente de alguns espaços que devem ser "públicos", não "estatais";

e) Também não disse que Marx compartilhava disso ou aquilo, mas apenas fiz referência sobre a teoria do Valor na obra do respectivo pensador, na qual o sentido de "valor" não se restringe à "moeda" (quem faz isso são os burgueses).

Por fim, apenas agradeço por dar mais dinamicidade a esse espaço dedicado apenas a troca de idéias com os alunos da nossa disciplina. Isso ajuda no esclarecimento de todos os pontos de vistas - todos, diga-se, válidos para o esclarecimento da "verdade", que não está nos "pontos", mas entre eles, na própria relação."



[Anônimo treplicou...]

"O debate está bom, por isso resolvi postar novamente.

Como vc fala, o ponto de nosso desencontro é o trabalho voluntário. Certo? Apesar de não concordar com esta forma pensar, o qual acredito que é sim uma forma de exploração do trabalho alheio, eu vou considerar seu ponto de vista.

Não me referi a eventos como a Copa, de caráter institucionalmente privado, mas a Rio +20, organizado por agências multilaterais. Então, gostaria de saber qual a diferença de uma entidade privada que recebe (muito) dinheiro público (a copa) e entidades como as que organizam eventos como este Rio+20 que em suma são mecanismos multilaterais que representam os interesses do grande capital. Entidades como ONU, UNESCO, são organismos que representam sim interesses do Capital Internacional.

O termo sacerdócio foi usado metaforicamente, como forma de representar e comparar formas de trabalho. Então, eu trabalho eventualmente e recebo um valor financeiro (mesmo que ainda discorde do salário), ou seja, é a troca (que por sinal é única forma que o trabalhador possui para sobreviver). É a venda de seu corpo, o que por si só representa uma grande desvalorização do ser humano. Agora pensamos. Se com toda essa exploração, com toda essa desvalorização nos já trabalhamos quase que em troca de um prato de comida, imaginemos esta concepção, que o individuo vai trocar seu trabalho (para uma entidade que poderia pagar pelo seu serviço) apenas por uma troca de favores, de míseros contatos? Mas, isso não é nada, pois atrás de tudo isso, existe uma ideologia perversa, em reproduzir uma ideia de voluntariado, que em outras palavras significa o desmonte do estado em prol das prioridades constitucionalmente conquistadas com lutas. Neste momento não estou fazendo referências a COPA, RIO +20, UNESCO, ONU. Estou sim fazendo um breve comentário sobre o desmonte do estado, dos direitos historicamente adquiridos.

E sobre Marx, você o citou de forma equivocada, talvez tenha sido infeliz em sua colocação, porque em outras palavras o trabalho voluntário é uma forma de representar, mesmo que implicitamente a ideologia dominante, da burguesia, dos organismos internacionais ditos de apoio educacional, como a própria UNESCO.

E do mais, espero estar aqui contribuindo com o debate, pois não existem verdades prontas e terminadas, mas sim devemos fazer o debate numa perspectiva sempre dialética e dialógica."


[Marcos Marques respondeu...]

"Sr. Anônimo,

Obrigado, novamente, pela participação. O diálogo, apesar de polissêmico, é realmente construtivo.

Apenas algumas discordâncias a considerar.

Não cito Marx (logo, não me equivoco). Apenas utilizo uma de suas teorias, a do "Valor", para analisar um fenômeno que, diga-se, não é novo: participação "voluntária" em determinados campos.

Sobre a identificação das agências multilaterais como organismos do "capital", estrito senso, creio que não coaduna com a postura do socialismo comunista do velho barbudo, de caráter - sempre - internaciolista.

Mas, como marxismo não é igreja, vale, como já disse, qualquer ponto de vista - desde, claro, com algum embasamento.

E se ser "dialético" e "dialógico" é rejeitar qualquer participação nas instâncias do mundo existente, o que dizer de Marx (redator de um jornal liberal), Gramsci (partícipe de um partido reformista), Engels (industrial!), entre tantos, que souberam não confundir o "desenho" de um mundo ideal com as armas de transformação do mundo real?

A não ser que acreditemos (o que é um direito) que haja só um caminho... E que esse caminho é, justa e dogmaticamente, o que a gente acredita.

Abs, Marcos"

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Bem, eis o debate.

Sobre "voluntariado", especificamente, para um melhor entendimento de minha visão sociológica sobre o fenômeno, sugiro a leitura do artigo "Os carrascos 'voluntários' da mídia", publicado em 24 de junho de 2003, no Observatório da Imprensa.

Mas, atenção: uma coisa é construir um ponto de vista crítico sobre um fenômeno; outra coisa é vivenciar esses mesmos fenômenos para aperfeiçoar nossa formação e, quem sabe, até mesmo encontrar novos elementos para aprofundar nossos pontos de vista.

Forte abraço,

Marcos Marques

2 comentários:

Anônimo disse...

Eu não concordo com qualquer ponto de vista em referência a Marx. É importante distinguir marxistas de marxianos. Primeiro porque deturpa o seu digníssimo trabalho. Segundo que não devemos pensar o sentido de seus trabalhos como uma coisa posta a nosso bel prazer, a “interesse próprio” a qual cada um faz uma leitura e interpretação. Acredito que o embasamento transcende a leitura de Marx. É necessário estar organizado em um partido com um programa politico claro e que, sobretudo exista o centralismo democrático em sua organização. Neste caso os partidos que representam os interesses da burguesia não são dignos na representação dos interesses dos trabalhadores. Não será pelas instâncias burguesas, como os parlamentos e organismos internacionais, que será feita a organização dos trabalhadores e muito menos acontecerá uma revolução por dentro delas.

Um mundo socialista, sem opressão, para que tenha êxito deverá estar pautado numa perspectiva internacionalista sim, mas que seja Marxista Trotskista Morenista. Isso não é fundamentalismo, muito menos é dogmatismo, pois este vem das religiões. È simplesmente uma coerência de programa. Quando o velho Marx, disse a célebre frase “proletários do mundo, uni-vos”, ele fazia uma chamado para a organização da classe operária no mundo. Não era um chamado de coalizão entre operários e burguesia para uma sociedade menos desigual.

Nos dias atuais vários governos ditos de “esquerda” usam esta frase como forma de pensar um governo de frente popular, que não é classista e socialista. Esta concepção de democracia baseada em cidadania de moral burguesa, medida pelo valor de compra é uma coisa antagônica, na conjuntura social capitalista. É impossível ter cidadania e democracia na sociedade de classes. Quando Trotsky organiza e funda a quarta internacional, estava não apenas lutando contra o capitalismo em si, mas também contra a burocracia Stalinista e, sobretudo acreditando que a terceira internacional, já estava perdida e era necessário outra. A Quarta internacional foi importante, mesmo que ainda muito pequena quantitativamente, para a reorganização dos trabalhadores.

Acredito que é impossível chegar à plena democracia em governos totalitários e também pela “democracia” burguesa que vivemos hoje. A mudança não será feita pelos mecanismos representativos do estado burguês. Uma coisa é você viver dentro de mundo capitalista, como Marx e nós vivemos. Outra é ser reformista e concordar com esta situação destrutiva que vivemos. Os reformistas não querem a destruição do estado capitalista, querem apenas ajustes. Tirando a experiência de Trotsky, que trago como exemplo, pelo fato de ser um dos intelectuais que contribuiu para a revolução russa, poucos experimentaram esta concepção de mundo. Ele o qual, mas tarde iria denunciar a burocratização do estado russo.

Quais seriam então para você as armas da transformação na construção do mundo ideal? Pelas eleições burguesas? Acredito na transformação do mundo pela organização dos trabalhadores em âmbito mundial. Por isso acredito na LIT (liga internacional dos trabalhadores) que este ano completa 30 anos de fundação, na busca da reconstrução da quarta internacional. E viva Moreno. A festa será em outubro na Argentina, país de Nahuel Moreno.

Do mais um abraço.
E ainda não tive tempo de ler seu artigo, mas irei ler sim!

Marcos Marques de Oliveira disse...

Prezado(a),

Desejo boa sorta à liga (mais uma?). Que seja capaz de inspirar o tal partido (mais um?) que vai nos salvar das mazelas do capitalismo e instaurar, finalmente, o "mundo socialista sem opressão".

Que Marx esteja convosco.

Abs, Marcos.