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"Sem dúvida, a Sociologia não valeria uma hora de trabalho... se não fosse para se atribuir a tarefa de restaurar às pessoas o significado de sua própria ação". [Pierre Bourdieu]
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23 de abril de 2013

Sociologia da Educação I: "A educação, do ponto de vista biológico", de Fernando Reinach

Prezados alunos, segue o texto indicado para a nossa próxima aula do dia 02/05/2013.

A educação, do ponto de vista biológico

Fernando Reinach*

Existem muitas razões para educar, mas do ponto de vista biológico a educação faz parte da estratégia de sobrevivência da espécie humana.

O argumento é simples e se relaciona ao tipo de informação que cada espécie necessita para sobreviver. Nesse quesito podemos dividir os seres vivos em três grandes grupos.

O primeiro contém as formas mais simples de vida. Uma bactéria é um bom exemplo. Nesses seres vivos toda a informação necessária para a sobrevivência está codificada no DNA.

A informação para sintetizar cada enzima, cada molécula de sua estrutura, e mesmo as informações que determinam como e quando ela deve reproduzir estão no genoma. É claro que tais organismos mudam seu comportamento quando o meio ambiente é alterado.

O mecanismo utilizado pelas bactérias para detectar certos tipos de nutrientes e em resposta alterar as enzimas necessárias para utilizá-los são bem conhecidos e estão no genoma.

Bactérias não precisam aprender, elas já nascem com toda a informação de que necessitam e transmitem essa informação a seus descendentes.

Redescoberta contínua
O segundo grupo é bem representado nos vertebrados. O cachorro é um bom exemplo. Esses seres vivos também nascem com grande parte da informação de que necessitam em seu DNA.

A diferença é que nesse DNA está programada a formação de um cérebro sofisticado, um órgão capaz de captar e estocar informação.

Cachorros aprendem uma quantidade enorme de fatos, comportamentos e informações que se tornam indispensáveis para sua sobrevivência. Aprendem a identificar pessoas e territórios e onde encontrar alimentos e seduzir seres humanos.

Ao fim de sua vida, um cachorro armazenou em seu cérebro uma vasta quantidade de dados que o ajudaram a sobreviver.

Entretanto, toda a informação é extinta com a morte do animal, pois a espécie não tem métodos de armazenamento ou transmissão dessas informações para seus descendentes.

Para os filhotes, são transmitidas somente as informações que estão no genoma, o que garante a formação do cérebro e a possibilidade de adquirir novamente a informação. Membros dessas espécies estão condenados a redescobrir o que os pais já haviam aprendido.

Animais culturais
No terceiro grupo o exemplo é o homem. Esses animais também nascem com a informação presente em seu DNA e um cérebro capaz de captar informações. A grande diferença é que somos capazes de estocá-la e transmiti-la a outros membros de nossa espécie.

É o que chamamos de cultura, aquilo que está nas bibliotecas, na internet, nos CDs e no cinema. Ao contrário dos cachorros, cada ser humano não tem de readquirir toda a informação através da experiência direta, pode recorrer ao enorme depósito de informação que nossa espécie acumulou.

Imagine que toda essa informação fosse perdida. Deixaríamos de ter a medicina, a comunicação e o transporte, sem falar da agricultura. Provavelmente boa parte da humanidade morreria.

O homem biológico de hoje é idêntico a um homem pré-histórico, é a educação que faz cada um de nós progredir em 20 anos o equivalente aos 20 mil anos de cultura da humanidade

Do ponto de vista biológico, nossa sobrevivência depende cada vez mais dessa nova forma de acumular informação que surgiu no planeta.

Em algum momento do passado o processo evolutivo atrelou nossa sobrevivência à educação. Aceitar essa relação de dependência talvez nos ajude a colocar a educação como prioridade número 1 de nossa espécie.

* Biólogo. Artigo publicado originalmente em O Estado de SP, 29/03/2007.

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