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"Sem dúvida, a Sociologia não valeria uma hora de trabalho... se não fosse para se atribuir a tarefa de restaurar às pessoas o significado de sua própria ação". [Pierre Bourdieu]
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3 de fevereiro de 2012

É possível uma nova "extensão rural"?

Por Marcos Marques de Oliveira

Documento recente, referente ao seminário “O estado da arte do ensino de extensão rural no Brasil”, realizado por pesquisadores da Secretaria de Agricultura Familiar do Ministério do Desenvolvimento Agrário (SAF/MDA) e do Programa de Extensão Rural de Desenvolvimento Local da Universidade Federal Rural de Pernambuco, traz uma importante reflexão sobre os 60 anos da chamada “extensão rural” no Brasil.

Iniciadas no final da década de 1940, as primeiras experiências extensionistas em Minas Gerais e São Paulo, capitaneadas por agrônomos, médicos veterinários e economistas domésticos, produziram nos anos que seguiram efeitos contraditórios no processo de desenvolvimento rural do país.

De positivo, considera-se que, pela primeira vez, o Estado chegou aos rincões, levando a uma parcela significativa de agricultores informações e conhecimentos para o aperfeiçoamento da produção e comercialização – e, por consequência, da melhoria de condições de vida no campo.

Isso se deu, vale ressaltar, pelo investimento em monocultivos tecnificados, que estimulou a criação de um dinâmico mercado agroexportador. Porém, por seu caráter seletivo e excludente, assim como por sua despreocupação com as questões ambientais, o saldo do processo, como afirmam Marcelo Miná Dias e Ângelo Brás Fernandes Callou na apresentação da respectiva pesquisa, é bastante negativo:

“A modernização associou-se, de modo indelével, à concentração da propriedade de terra, à precarização das relações de trabalho no campo, ao êxodo rural, ao inchaço das periferias de médias e grandes cidades e à degradação ambiental. A percepção desse fato fortaleceu a necessidade de repensar modelos de desenvolvimento e concepções e práticas de Extensão”.

No campo de ensino da Extensão Rural, as tentativas de rompimento com esse “difusionismo modernizador da agricultura” se ensaiam desde no final da década de 1970, sob impacto do processo de redemocratização da sociedade brasileira e a influência do pensamento pedagógico de Paulo Freire. Na busca de um novo perfil profissional para o extensionista, levava-se em conta a ampliação das lutas pela reforma agrária, a inserção crítica na realidade rural, os diferentes anseios dos diversos grupos sociais do campo, as variadas formas de organização dos movimentos populares e, entre outras fatores, uma noção de desenvolvimento não exaurida em sua dimensão econômica.

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“A modernização associou-se, de modo indelével, à concentração da propriedade de terra, à precarização das relações de trabalho no campo, ao êxodo rural, ao inchaço das periferias de médias e grandes cidades e à degradação ambiental. A percepção desse fato fortaleceu a necessidade de repensar modelos de desenvolvimento e concepções e práticas de Extensão”.

Marcelo Miná Dias, Professor da UFV

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Em suas conclusões, porém, a referida pesquisa aponta para uma insatisfatória mudança no quadro de formação dos extensionistas nos últimos 30 anos. Especialmente pela tímida incorporação de temas caros (“novas ruralidades”, “agroecologia”, “desenvolvimento local”, “associativismo e cooperativismo”, “metodologias participativas” e, entre outros, “gênero, geração e etnias”) da atual agenda dos debates de desenvolvimento rural (nacional e internacional) na maior parte dos programas e disciplinas de Extensão Rural.

Frente à verificação da desarticulação entre o ensino, a pesquisa e a extensão universitária no conjunto das atividades relacionadas à Extensão Rural, os pesquisadores arrolam algumas importantes questões. Questionam, por exemplo, sobre as insuficiências dessa lacuna na formação dos extensionistas e, principalmente, de que maneira a pesquisa e a extensão (consideradas mais avançadas) podem contribuir para uma real mudança qualitativa no ensino oferecido pelas universidades – a par do que já está expresso na Política Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural (PNATER).

A partir dos ensinamentos adquiridos na nossa micro-experiência com o projeto-piloto de implementação do Programa Empreendedorismo do Jovem Rural (PEJR) na região de Campos Novos e Joaçaba, numa parceria do Instituto Souza Cruz com a Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (EPAGRI), podemos apontar que as inovações no “vocabulário extensionista” devem contemplar uma preocupação mais aguda com a formação das novas gerações de agricultores familiares.

Assim, ao lado de temos como “desenvolvimento sustentável”, “comunicação participativa”, “novas ruralidades” e “agroecologia” – que estão substituindo ou articulando-se com “dias de campo”, “grupos 4-H (head, heart, hand, health)”, “melhoria das condições de vida” e “programas de rádio”, entre outros antigos jargões – deve-se aportar esforços para um melhor incorporação das questões relativas aos que vão dar continuidade às unidades familiares de produção: os jovens rurais.

Se a “nova” Extensão Rural brasileira conseguir dialogar com esse ator, estarão abertos os caminhos para a concretização de um desenvolvimento agrícola verdadeiramente sustentável, que aposta na modernização não só das técnicas de produção e comercialização, mas também das relações sociais no campo – em prol de uma agricultura economicamente produtiva e, ao mesmo tempo, socialmente justa na redistribuição das riquezas semeadas, cultivadas e colhidas pelos empreendedores rurais que lá vivem e trabalham.

* Artigo publicado originalmente no site Agrolink, em 03 de fevereiro de 2009, sob o título "Novo vocabulário da Extensão Rural".

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