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"Sem dúvida, a Sociologia não valeria uma hora de trabalho... se não fosse para se atribuir a tarefa de restaurar às pessoas o significado de sua própria ação". [Pierre Bourdieu]
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4 de junho de 2012

Ascensão e "queda" do sistema da propriedade privada

Abaixo, trecho de minha palestra "Ascensão e 'queda' do sistema da propriedade privada: o materialismo histórico-dialético de Karl Marx", oferecida ao grupo de estudo Trabalho, Cultura e Educação do IEAR, no dia 21 de março de 2012.

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Nascido em 5 de maio de 1818, na cidade de Trier, na Renânia (região disputada, à época, por França e Prússia), Marx teve como pai o advogado Hirschel, um judeu convertido ao protestantismo por questões políticas, e não religiosas. Viveu ali até os 17 anos, respirando os ventos democráticos trazidos pela Revolução Francesa, incluindo os debates embrionários do ideário socialista saint-simoniano, que denunciava as mazelas de uma sociedade de classes dividida por interesses opostos: as "classes privilegiadas" e as "classes trabalhadoras".

Mas é como estudante de Direito (em Bonn, em 1835, e depois em Berlim, em 1837) que começa a refinar seu pensamento, dedicando-se com afinco aos estudos de Filosofia, não ficando imune à crítica hegeliana ao otimismo do pensamento liberal inglês, que via a História humana forma "progressiva", obviamente tomando a si própria como o ponto final. Segundo Lefevbre (1981), Hegel não nega que há certo acúmulo e condensamento na História da humanidade, mas esse progresso não se realiza de maneira pacífica, segundo as leis de uma harmonia antecipadamente estabelecida.

Realiza-se, isto sim, através de múltiplas contradições. Hegel, desse ponto de vista, substitui o otimismo um pouco fácil do século XVIII por uma filosofia que, antes de tudo, estuda as contradições da vida, do pensamento, da sociedade, para reencontrar o "movimento" (a transformação, o progresso) que através dela se opera". É o que se convencionou chamar de "idealismo hegeliano", baseado na perspectiva de "Ideia absoluta", uma espécie de "Deus secular" que nada mais é do que a própria "Ciência". Quando se fala das "grandes ideias que guiam o mundo" (a ideia de justiça, a ideia de amor, entre outras) se é, afirma Lefevbre, hegeliano.

O paradoxo do idealismo é, desta forma, aceito por muitos espíritos que procedem invertendo a ordem das coisas. Dito de outro modo: põem o carro à frente dos bois, o Espírito antes dos espíritos, a Ciência antes dos sábios... Paradoxo, enfim, de uma "contradição conservadora" que reconhece a mudança no pensamento; mas, geralmente, instaura o reacionarismo na prática política.

A reação a esse reacionarismo virá com os "hegelianos de esquerda", defensores de uma nova leitura de Hegel, apostando na necessidade de mudança com a "renovação do homem e da sociedade". Adepto no início, Marx vai caminhar para uma crítica mais radical, advogando não (apenas) uma revolução das consciências (sua crítica aos esquerdistas), mas especialmente uma revolução das práticas políticas.

Em 1841, na tese "Diferença entre a filosofia da natureza de Demócrito e a de Epicuro", Marx, resgatando alguns aspectos do "materialismo das antiguidades", busca os primeiros remédios contra os excessos do idealismo hegeliano, incitando a necessidade de sua superação a partir da aplicação do seu próprio método: a famosa dialética. De acordo com o esquema básico do método (da Tese como afirmação de uma dada situação; da Antítese como sua oposição; e da Síntese como nova condição nascida deste conflito, trazendo em si elementos antigos, porém renovados, que se transmutam em uma nova síntese; esboço, este, de um processo sem fim), Marx se volta contra a hipótese de que esta é uma lei apenas do pensamento. Sua aposta está na premissa de que esta é a lei do movimento de toda a História...

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