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"Sem dúvida, a Sociologia não valeria uma hora de trabalho... se não fosse para se atribuir a tarefa de restaurar às pessoas o significado de sua própria ação". [Pierre Bourdieu]
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26 de janeiro de 2012

Aprendizado sociológico em tempos de modernidade líquida

Por Marcos Marques de Oliveira

RESENHA DE [BAUMAN, Zygmunt; MAY, Tim. Aprendendo a pensar com a sociologia. Rio de Janeiro: Zahar, 2010].

Professores de Sociologia, experientes ou neófitos, acabam de ganhar mais um aliado para a preparação dos seus cursos. Fazemos referência aqui ao recém lançado Aprendendo a pensar com a sociologia, de um dos mais influentes autores da atualidade: o polonês Zigmunt Bauman, professor emérito das universidades de Varsóvia e Leeds, que vem se especializando em análises sobre as transformações das relações socioculturais de nosso tempo.

O principal mérito da obra em questão, co-assinada pelo inglês Tim May, da Universidade de Salford, repete a fórmula dos outros sucessos editoriais de Bauman: a capacidade de expor sua análise dos fenômenos complexos da nossa “modernidade líquida” em um texto ágil e acessível, requisito fundamental para docentes que tem como desafio estimular iniciados na literatura sociológica - ou, mais especificamente, os que se preocupam com "as bases sociológicas da educação".

O convite à leitura dá-se com a apresentação da disciplina não pelo seu desenrolar histórico, mas pelo aspecto metodológico que caracteriza a interpretação sociológica, na sua distinção e similaridade com outras formas de investigação da realidade. “Todos buscam coletar fatos relevantes e garantir sua validade, e, então, testam e voltam a testar esses fatos no sentido de confirmar a confiabilidade das informações a respeito deles”, afirmam os autores.

Mas se ao economista, por exemplo, interessa o ponto de vista da relação entre os custos e benefícios das ações humanas, e ao cientista político os aspectos das ações humanas que mudam condutas vigentes de outros atores em termos de seu poder e influência, ao sociólogo cabe observar essas ações como elementos de figurações mais amplas, articuladas por diversos atores numa rede de dependência mútua e fenômenos de condicionamento recíprocos que expandem ou confinam a liberdade desses mesmos atores.

A sociologia é vista assim como uma forma de compreender o mundo humano, abrindo possibilidades diferentes de pensá-lo, numa tensa e intensa relação com o chamado “senso comum”. Este nada mais é do que a matéria prima para o seu desenvolvimento, distinguindo-se dele pela subordinação do seu discurso a regras rigorosas, mas que pode também ser seu aliado no debate sobre as grandes e pequenas questões públicas que estão, atualmente, cada vez mais privatizadas pelas supostas competências dos “sistemas peritos” que se rogam o direito de decidir, quase sozinhos, sobre assuntos que afetam a vida de todos nós; tal como a qualidade dos alimentos, o meio ambiente e o papel da engenharia genética.

Em suma, eis a tese do belo livro: numa sociedade democrática, a última palavra (nessas e outras questões) não pode ser dos cientistas.

Opondo-se tanto aos discursos que se fundam na particularidade das visões de mundo (relativismo), quanto aos que se travestem de formas inquestionáveis de compreensão (ortodoxia), a sociologia - na opinião de Bauman e May - colabora à condição humana por dar sentido a ela, especialmente pela análise das numerosas teias de interdependência social que identifica e torna visível.

Abala, sem dúvida, as confortáveis certezas da vida que, de certa forma, nos insere no mundo. Mas também pode proporcionar o questionamento de supostas verdades que mantém todo e qualquer opressor status quo.

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"Poderíamos dizer que a questão central da sociologia é: como os tipos de relações sociais e de sociedades em que vivemos têm a ver com as imagens que formamos uns dos outros, de nós mesmos e de nosso conhecimento, nossas ações e suas conseqüências?"

(Zigmunt Bauman)

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Clique aqui para assistir "Nós hipotecamos o futuro", a última entrevista do sociólogo polonês a uma TV brasileira (Globo News, Programa Milênio).

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