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"Sem dúvida, a Sociologia não valeria uma hora de trabalho... se não fosse para se atribuir a tarefa de restaurar às pessoas o significado de sua própria ação". [Pierre Bourdieu]
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20 de janeiro de 2012

O projeto político-pedagógico da "Terceira Via" (Parte 2)

As bases da 3ª Via

Por Marcos Marques de Oliveira

A base epistemológica do projeto político de Anthony Giddens é a sua Teoria da Estruturação, que a partir das lições dos clássicos da sociologia, rejeita a visão linear do progresso histórico presente no marxismo e tenta captar a relação dialética entre solidariedade social (de inspiração durkheimiana) e ação humana (de inspiração weberiana). No Brasil, anos antes, um outro importante sociólogo - Florestan Fernandes - também ousou articular essas três fundamentais tradições sociológicas, mas com objetivos (papo para outro artigo) bem diferente.

Sobre a forma de se pensar o social em termos classistas, Anthony Giddens afirma: “A idéia do conflito de classes como mola da história certamente deve ser rejeitada. Dizer que esse conflito é a força motriz da mudança histórica não convence” (GIDDENS, A. e PIERSON, C. Op. Cit., p. 52). Ele não nega as diferenças classistas produzidas pelo sistema capital, admitindo até que a globalização tenha ampliado as desigualdades sociais. Mas o que ocorreu, na sua visão, foram “novos processos de exclusão”, com a formação de uma classe cosmopolita global. Isto é: o aumento da “mobilidade do capital” frente ao trabalho fez com que o Estado perdesse funcionalidade e os posicionamentos políticos se tornaram desvinculados das diferenças de classe.

Giddens, em conseqüência, se diz descrente de uma ação política internacional apoiada nas classes dominadas, já que as forças básicas da economia não resultam de atividades de uma classe dirigente capitalista específica. “Ninguém controla os mercados financeiros” (GIDDENS, A. e PIERSON, C. Op. Cit., p. 53). O fato de vivermos uma “forma mais pura” de capitalismo não significa que exista uma dialética da história condutora de uma transição para algum tipo de socialismo mundial. E mesmo que houvesse algum processo evolutivo, “o socialismo está morto como modelo de organização econômica capaz” de superar as limitações do capitalismo (GIDDENS, A. e PIERSON, C. Op. Cit., p. 54).

O que é possível? Promover um arranjo político que consiga desenvolver uma sociedade global cosmopolita, baseada em princípios ecologicamente aceitáveis, em que se produz uma geração de riquezas com controle das desigualdades. Uma política de manutenção do “espírito ético do capitalismo”. Neste projeto, os agentes são: Estados, grupos de Estados, empresas, organizações internacionais, indivíduos e grupos comunitários – todos conscientes da necessidade de uma regeneração da relação entre o global e o local, para se evitar o colapso do Planeta.

Na proposta esboçada por Giddens, assume-se que o mercado gera desigualdades. Mas, por não haver determinismo de qualquer espécie, o próprio capitalismo tem condições de amenizá-las. Mas isto só poderá ocorrer se houver uma renovação na relação Estado/sociedade civil. O que, por sua vez, como veremos a seguir, demanda um novo Estado.

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