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"Sem dúvida, a Sociologia não valeria uma hora de trabalho... se não fosse para se atribuir a tarefa de restaurar às pessoas o significado de sua própria ação". [Pierre Bourdieu]
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20 de janeiro de 2012

O projeto político-pedagógico da "Terceira Via" (Parte 1)

Por Marcos Marques de Oliveira

Introdução

Este artigo tem o objetivo de analisar o significado político do chamado trabalho "voluntário" e sua categoria conexa, o "terceiro setor", no processo de privatização das políticas públicas, especialmente as da área educacional. Por identificarmos a base teórico-epistemológica deste projeto político no ideário da “Terceira Via”, é que tomamos como objeto a obra do sociólogo inglês Anthony Giddens, que grande influência vem exercendo não só em governos neo-social-democratas, como também em partidos e movimentos políticos supostamente críticos ao neoliberalismo.

A hipótese da qual partimos é de que a nova forma de relação entre o Estado e a sociedade civil, postulada pelos adeptos desse ideário, produz efeitos nefastos no cotidiano das classes populares, devido a promoção da mercantilização dos direitos sociais, que se instrumentaliza com o redimensionamento do aparelho estatal e com as reformas que colocam em cheque os mecanismos universalistas de intervenção e financiamento do bem-estar social.

No que tange à política educacional brasileira, acreditamos que a não reversão da tendência de transferir as responsabilidades estatais para outras instâncias pode ampliar ainda mais o abismo das oportunidades educacionais entre as classes que compõem a nossa sociedade.

Para o cumprimento dos objetivos propostos, inicio com uma brevíssima exposição da vida e obra de Giddens, na pista indicada por Karl Marx de que, ainda que “ideológica”, a ciência dita "burguesa" ilumina elementos da realidade. No caso específico do autor em questão, acredito que o entendimento de sua obra pode nos informar sobre como os programas políticos são influenciados por intelectuais, assim como os conceitos sociológicos se aproximam ou se afastam da vida cotidiana.

Giddens: vida e obra

Anthony Giddens nasce em 1938, no subúrbio londrino de Edmonton. Passa lá e em Palmers Green a sua infância, locais que ele denomina “terra devastada”, a qual a melhor lembrança é a torcida pelo time de futebol Tottenhan. Filho de um metroviário e de uma “do lar”, tem um irmão mais moço que, assim como ele, tinha um sonho: “fugir das origens”. Hoje, o irmão do sociólogo famoso é um reconhecido diretor de comerciais nos EUA (GIDDENS, A. e PIERSON, C. Conversas com Anthony Giddens: o sentido da modernidade. RJ: FGV, 2000).

Giddens tem uma vida escolar regular no ginásio local, onde “protesta” contra os conteúdos pedagógicos com a leitura de obras de filosofia, psicologia e antropologia. Termina o secundário e entra para a universidade “por acaso”. Escolhe a Universidade de Hull, a que lhe parecia de mais fácil acesso. Apesar da nota baixa, consegue ser aprovado na entrevista e vai cursar filosofia. No entanto, influenciado pelo professor Peter Worsley, acaba optando pela sociologia. Da turma, porém, é o único a não ingressar na “sociedade socialista” do professor.

Hull, no norte da Inglaterra, é uma cidade pesqueira próxima a outras cidades operárias, como Yorkshire, uma comunidade mineira, a forma mais visível de uma “revolução industrial” que Giddens diz ter visto. Ao fim do curso, ele vai para a Escola de Economia de Londres, devido a uma nova sugestão do Prof. Worsley. O seu objetivo era se tornar "servidor público".

Na nova casa, faz o mestrado com uma dissertação, em suas próprias palavras, “engraçada”: Esporte e sociedade na Inglaterra contemporânea. Logo após, torna-se professor de sociologia da Universidade de Leicester. É admitido após uma entrevista sobre a sua dissertação de mestrado, que se transforma num intenso bate-papo sobre a “sociologia do esporte”.

Entre os entrevistadores, o então desconhecido Norbert Elias (o “quase-Weber”), que ensinou a Giddens como compensar pouco talento com muito trabalho. Ali, inicia o seu projeto acadêmico, conjugando questões metodológicas e de teoria social, para tentar compreender uma definição do senso comum sobre a sociologia: vista como o “estudo das pessoas que não precisam ser estudadas”. Denomina-o de sociologia da “relação reflexiva”, cujo objeto é a ação social humana.

Entre 1968 e 1969, vai para a América do Norte. De Vancouver, no Canadá, segue para a Califórnia, nos EUA, onde mantém contato com o “radicalismo populista” de T. Bottomore, símbolo da esquerda americana: idéias radicais e vida burguesa.

Enfrenta, nesse período, o clímax da contra-cultura, a qual considera uma espécie de cristianismo primitivo ou de barbarismo na queda de Roma. Do desbunde, seleciona como interessante os movimentos de emancipação (mulheres, ambientais, de direitos humanos, etc.), assim como o predomínio de uma visão marxista anticomunista.

É nesse período que lança seu primeiro livro: Capitalismo e Moderna Teoria Social (GIDDENS, A. Capitalismo e moderna teoria social. Lisboa: Editorial Presença, 1994, 4ª Ed.). Volta à Europa para ingressar em Cambridge. Na Faculdade de Economia, dá uma nova dimensão ao seu projeto acadêmico, que se posta como uma “reinterpretação da história do pensamento social”, com os seguintes fins: a) reconstrução da lógica e do método sociológico; b) análise das modernas instituições sociais. O primeiro passo é aprender alemão para ler Marx, Weber, Hursserl e Heidegger nos textos originais.

Em 1984, ocorre um grande salto em sua carreira com a editora Polity Press, cujo objetivo era fazer uma ponte entre o pensamento anglo-saxão e o “europeu”. Em 1987, inaugura a cátedra de sociologia em Cambridge e, em 1988, a faculdade de ciências sociais – a primeira a ser criada em 50 anos naquela instituição.

Depois de inúmeros livros, Giddens volta à Escola de Economia de Londres como reitor, no mesmo ano em que o Partido Trabalhista, após 20 anos, vence as eleições. Ele se junta a Tony Blair na reestruturação do “novo trabalhismo” inglês, que tenta se desvencilhar de antigas idéias welferianas para ter uma influência concreta e prática na atual modernidade.

A Escola de Economia tem neste projeto um papel muito importante. Giddens lembra que ela foi o berço, na década de 40, das idéias e políticas fundamentais do Estado de Bem-estar Social, assim como da “contra-revolução” liberal (tendo em Hayek, um de seus professores, o principal articulador). Nessa nova fase, a universidade deveria ser a fonte da Terceira Via, do novo caminho posto entre a social-democracia e o neoliberalismo, cujas características básicas apontamos no segunda parte deste artigo.

(Continuação)

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