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"Sem dúvida, a Sociologia não valeria uma hora de trabalho... se não fosse para se atribuir a tarefa de restaurar às pessoas o significado de sua própria ação". [Pierre Bourdieu]
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16 de janeiro de 2012

A pedagogia revolucionária de José Pacheco

Prezad@s, Como o texto de Pauta Social está incompleto, segue o original, publicado no Jornal do SINEPE/RJ, em abril de 2008.

Foto: "Miragem", Marcos Marques

A PEDAGOGIA REVOLUCIONÁRIA DE JOSÉ PACHECO

Por Marcos Marques

Apresentar José Pacheco aos educadores brasileiros, cada vez mais, torna-se desnecessário. Desde que revolucionou o ensino na longínqua Escola da Ponte, pequeno estabelecimento destinado a jovens “desajustados” da Vila das Aves, na cidade do Porto, em Portugal, seu nome freqüenta com assiduidade as muitas conferências, encontros e seminários da área educacional pelo país afora. O que chama atenção na trajetória desse professor? A ousadia de derrubar mitos pedagógicos que vêm desde os tempos de formação da escola “moderna”.

– Somos herdeiros de um modelo napoleônico de ensino, forjado em idéias e princípios do Século XIX, moldado pelos adventos da Revolução Industrial e da criação das repúblicas nacionalistas. Esse modelo pode ser resumido na quadra “caserna, convento, prisão e escola”, cujas arquiteturas opressivas foram muito bem investigadas por pessoas como Michel Foucault e Pierre Bourdieu, explica Pacheco, que decretou o fim das séries, das aulas e dos turnos no estabelecimento que foi convidado a dirigir no ano de 1976.

Nessa época, a Escola da Ponte não passava de um “arquipélago de solidões”, que agregava meninos e meninas que outras escolas rejeitavam. De um lado, professores refugiados em suas salas de aula, sozinhos com seus alunos, métodos e manuais, obedecendo a uma imposta lógica multidisciplinar que não sinalizava para nenhum projeto comum. O professor como centro, informado por materiais uniformizados, exigindo lições repetidas que culminavam numa passividade generalizada.

– Percebi que teria que tomar outro rumo e comecei a refletir. Como fazer diferença? É possível educar de outra maneira? Inspirei-me em minha vivência de professor convencional (sim, eu fui!), na minha difícil experiência como avaliador e, por fim, nas várias tendências pedagógicas libertárias para tentar dar sentido àquela instituição em que nada fazia sentido.

O fato é que, depois de mais de três décadas do início da experiência, a Escola da Ponte vem obtendo os melhores resultados nas avaliações educacionais do país, adotando uma forma de organização e gestão surpreendente para os que estão acostumados com o nosso ideal de escola: além da ausência das salas e crianças separadas em série ou idade, os alunos é que decidem o que estudar, montam seus próprios grupos de interesse e são eles que solicitam a intervenção do transdisciplinar corpo de professores-tutores.

O que aparentemente poderia redundar numa situação de caos, resultou num novo paradigma educacional para o ensino dito “formal”, que sob o signo de uma suposta cientificidade pedagógica pouco contribui para despertar na comunidade escolar as características mais dignas da prática científica: a capacidade de observar, questionar, experimentar, avaliar, analisar, criticar, compreender e, se possível, intervir para transformar. “Como isso acontece nas escolas em que o aluno é só um ouvinte, um receptáculo de conteúdos?”, pergunta o ex-diretor da Ponte, avisando que o exitoso “paradigma” está longe de ser uma receita aplicável em qualquer contexto e lugar.

– Tenho ciência, sem falsa modéstia, que eu e a Ponte cumprimos uma função simbólica importante. Sinto-me, na verdade, privilegiado por ter participado de um projeto de cunho revolucionário que deu certo. Mas procurar em mim ou na Ponte soluções para problemas educacionais de outras pessoas, instituições e localidades é um equívoco. Por exemplo, muitos me perguntam sobre como resolver questões de indisciplina, de dificuldades de aprendizagem de seus alunos. Não tenho fórmula mágica. O que posso fazer, e venho fazendo, é confrontar formas de se educar com o que fiz. No máximo, mostrar que é possível extinguir algumas práticas e, com isso, se ensinar de outra maneira. Mas, cada um à sua maneira, avisa Pacheco.

Especificamente sobre indisciplina, o professor lembra que o modelo convencional de ensino é exímio na produção de um inconformismo conformista. Ou seja, ao impor um mesmo ritmo para todos, com base numa separação enciclopédica de conteúdos oferecidos em doses homeopáticas de forma autoritária, torna-se um estímulo para o desestímulo, combustível para o desinteresse seguido de atos de egocentrismo. No caso da Ponte, os alunos são convidados a transgredir fundamentando a transgressão, misturando com equilíbrio solidariedade e competição, ajudando o coletivo a se reinventar todos os dias.

Uma última dica do professor Pacheco: o cuidado com o fetiche tecnológico.

– Nós nunca rejeitamos nenhuma ferramenta. Porém, não perdemos o senso crítico advogando o simples aparelhamento. Fomos, por isso, também os primeiros a reagir contra os riscos da perversão das novas tecnologias. Admitimos as vantagens, mas com prudência. Se não for assim, a entrada do computador pode até servir para reforçar o ensino tradicional. O que importa, sempre, é dominar as ferramentas. Não ser dominado por elas. Ao invés de se encherem de máquinas, as escolas devem começar a pensar quais serão suas funções e lugar nos próximos dez, vinte anos. Nesse tempo, talvez nem existam mais computadores e escolas como conhecemos. Os “espaços de aprendizagem” deverão ganhar novas formas e institucionalidades. E, muito provavelmente, os diplomas não vão dizer mais nada, já que as competências e habilidades serão medidas por mecanismos mais flexíveis.

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